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  • Em Copenhague 28.04.2010

    O mundo acompanhou atentamente – e com procedente ceticismo – o desenrolar das discussões que aconteceram na capital da Dinamarca neste fim de ano de 2009, marcado pela crise econômica nos setores imobiliária e financeira a partir dos Estados Unidos, com uma quebradeira econômica sem precedentes e agravada por surpreendentes convulsões climáticas, “Nosso futuro é inegociável” dizia um cartaz de um ativista solitário que traduziu, sem alarde e contundente simplicidade, a recusa da comunidade internacional em torno dos acordos de bastidores que buscam assegurar interesses pontuais, corporativos e de Estados nacionais em detrimento da garantia de manutenção da qualidade e perenidade da vida no planeta. É a briga do velho modelo de desenvolvimento, predatório e vesgamente ganancioso, que descreve esta civilização decadente, contra o imperativo de um novo paradigma de crescimento ecologicamente adequado , politicamente equilibrado, socialmente justo e economicamente viável, como recomendava a exortação profética do professor Samuel Benchimol.

    Tive o privilégio de organizar, com o instituto de Estudos Avançados da USP, um seminário sobre Opções de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, no Fórum Global da Conferência da ONU no Brasil, a Rio-92, onde estavam presentes Paulo Alvim, Bertha Becker, Crodowaldo Pavan, Bautista Vidal e outras referências do debate científico nacional para ouvir Samuel Benchimol e suas teses sobre a Guerra na Floresta, um libelo, que depois virou livro, a favor do desenvolvimento sustentável que chamava a atenção para o conhecimento do bioma amazônico, destacando o potencial da floresta, sua história, especificidade e riqueza. Na exposição, insistiu que, além da sua biodiversidade, é preciso focar na etnodiversidade, na geodiversidade e, sobretudo, na homo diversidade a quem toda a pesquisa, inovação e desenvolvimento devem servir: “... o ser mais nobre na escala evolutiva”.

    Estudioso compulsivo dos enigmas da floresta, o professor Benchimol, que nos deixou em 2002, discursava sobre as oportunidades que ela oferece com a autoridade de empreendedor bem sucedido, visionário- no sentido da previsão futurista inteligente- e sintonizado com a ambigüidade perversa com que o olhar estrangeiro trata a região.

    O discurso da preservação da floresta e sua intocabilidade associada à necessidade de sobrevivência da humanidade, dizia ele, esconde a dominação dos blocos econômicos dos países desenvolvidos, cujo poder político e transnacional abomina a possibilidade de crescimento científico e tecnológico da Amazônia para aproveitamento de suas riquezas naturais. “Assim nos manteremos uma população empobrecida a despeito da imensidade de nossas riquezas”.

    Formado em Ciências Sociais e Econômicas dos Estados Unidos, e autor de mais de 110 livros dedicados aos temas e problemas da região onde nasceu, ele conhecia a intimidade da ideologia do poder e da dominação dos países centrais. Por isso formulou o imposto internacional a ser pago pelos países desenvolvidos à floresta amazônica por seus serviços ambientais prestados à saúde do planeta, recursos que deveriam ser canalizados para a pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica em favor de nossa gente. Seu brado surpreendeu a opinião pública de 1992 no Rio de Janeiro, repercutiu timidamente pelos emissários do país em 1997, na reunião de Kyoto, onde ficou detalhado o compromisso global para reduzir emissões, e permanece gravemente atual na Conferência do Clima que ora transcorre. Mais do que ampliar as metas da intocabilidade florestal amazônica, portanto, o Brasil cumprirá sua parte na redução de emissão de poluentes se souber apostar nos paradigmas de crescimento profetizados pelo professor Benchimol, cujas obras e alerta precisamos cuidadosa e respeitosamente revisitar.

     

    Por Alfredo MR Lopes

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